segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Dúvidas sem método

por Luis Calisto http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/231429-duvidas-sem-metodo
As ameaças de pancada para o ano político são legítimas. Têm apoio popular

Quando o Sol desliza na sua órbita aparente para além das Desertas, abandonando a Madeira ao fresquinho outonal, as nossas árvores de folha caduca despem-se nas ruas e nas serras. Medida de austeridade que transfere a energia aplicada na folhagem para o aquecimento necessário às árvores nos dias curtos e frios. Porém, mais para diante, aos primeiros raios e trinados da Primavera, a Natureza repintalga o quadro triunfal.
Já com a árvore-da-vida que consome o cidadão madeirense, a evolução inverte-se. A folhagem, persistente, obscurece o ambiente nas quatro estações. O que muda é a própria árvore, carcomida paulatinamente por roedores, sanguessugas e até insectos os mais insignificantes. E foi à sombra do lenho de raízes apodrecidas e tronco desengonçado por acção dos parasitas do sistema que saiu à luz da publicidade a listagem das ameaças e dos ameaçados para o ano político ora iniciado. O apavorante aviso, de fazer tremer as pedras da calçada, arrancou a gargalhada do costume, dada a associação da fanfarronice ao velhíssimo e equívoco adágio 'a mouro morto grande lançada' - e ainda a outro que fala de aparências e ilusões.
Sob fogo - anunciam os chefes da tribo -, rastejarão a 'Madeira velha', a maçonaria, a oposição e o chamado 'novo partido da Comunicação Social'. A lista é decalcada dos anos políticos anteriores. O que, temos de engolir, legitima a tese oficial: a política e a postura ditatoriais em vigor sustentam-se no sufrágio popular. Manda a honestidade reconhecer o apoio eleitoral aos predadores que contaminam a árvore. Os peripatéticos fanáticos do estonteante e cirúrgico sincretismo jardineirista argumentam por essa via e nem um cartesiano dos que abalaram axiomas e teoremas clássicos atingiria outra verdade. Levantem-se as dúvidas: o povo vota no PSD para consagrar a instabilidade política e social vigente há 30 anos? O povo vota, feliz, a corrupção crescente nos desgraçados farelhões atlânticos? Quer sufragar o descalabro governativo das falências, da dívida monstruosa e do desemprego? O eleitor aprova o insulto, a baixeza de nível, o conflito? Vota o uso de reféns da subsidiodependência em guerras pessoais? O eleitorado, quando vota no quadradinho habitual, fá-lo para acentuar o divórcio entre pessoas e instituições, por cobardia da política oficial? O povo apadrinha as ofensas aos compatriotas continentais? Dar maiorias absolutas significa aplaudir o défice democrático, a discriminação, a perseguição aos jornais? O povo quer impostos loucos? O povo vota para pagar políticas económico-financeiras suicidas? O povo vota para haver reformados no activo e jovens no desemprego? O eleitor vai às urnas para garantir o duplo vencimento de certas figuras enquanto o próprio eleitor desespera na miséria familiar?
Não senhor, respondem, não foi para isso que o povo votou em 1976, em 1980, em 1984. Sim senhor, dizemos nós, o povo sabe o que está a fazer. Com os males políticos, económicos e sociais a crescer nos oitentas, o povo tornou às urnas e sufragou de novo o regime. Com as chagas a progredir, vieram outras eleições e o resultado não mudou. Mais quatro anos, e o eleitorado a dar-lhe. Logo, erra quem disser que, nas urnas, o povo desconhece o que está a fomentar para o mandato seguinte. Logo, o povo vota conscientemente no insulto, no regabofe da vida pública, na incivilidade, no desemprego, no linchamento de pessoas e de instituições, na pobreza extrema, na exclusão, nas chagas sociais visíveis em cidades e campos. Logo, fora com a hipocrisia: o povo não quer mudar o regime fascista da prepotência, da corrupção e da insídia. É um direito seu. Logo, mudar de destino só mudando de povo. O que leva tempo e não é garantido.
Dentro da anormalidade habitual, o 'ano político' entrou em acção com as ameaças da ordem. Confissão de que o estilo alapado à parvónia é para continuar. A exclusão do 'presidente da Madeira' da revisão constitucional laranja diz tudo. Com eleições regionais no horizonte, o povo bate no peito, negando como sempre o sentido de voto. Depois, na hora da verdade, justifica-se a si próprio: a oposição não tem ninguém... Ora, quem aceita dar a cara pelo povo sabendo que será enxovalhado e que o povo votará em quem enxovalha?
Dramático: o povo vota livre e conscientemente nos trauliteiros que o usam quando precisam e o tratam como imbecil a toda a hora. Razão para os fabricadores de intrigas, os inventores de libelos e fabulações delirantes, os mestres do mimetismo arvorados em bandarilheiros da praça e os marretas de esgoto... motivos para esses agradecerem de queixo no chão, aos césares vencedores da democracia decadente e bolorenta, o controlo do povo e as mordomias proporcionadas há décadas. O que certamente causa náusea a quantos escolheram a maioria por convicção, com sinceridade política.
No meio da desgraça, há ilhéus que recusam pastar no redil, no torpor doentio do rebanho, a respirar conformismo, indiferença cobarde, letargia, putrefacção. Sempre há quem não se dispense do salutar exercício de cavalgar inquietação e causas, sobrevoando com solene desprezo os caciques de aldeia que não vão além dos regionais.
Lá para finais de 2011, explodirá essa décima consagração do absolutismo. Por voto livre do povo. Como é uso dizer-se, o povo é inteligente. Sábio. Nobre. E há outros inteligentes. Vieram agora mais uns quantos à Madeira elogiar a ditadura democrática e a alucinação do poder. Veio o próprio chefe da Europa, por acaso oriundo de um país que confirma situações criminosas na Madeira mas cruza os braços. Outros, do PPE, homenagearam o cintilante regime aborígene, condecorando a "defesa da paz e os valores humanistas". Talvez a 'paz podre' e o 'humanismo' da linguagem suja da Madeira nova... sufragada pelo povo. O mesmo povo que em Março de 1974 vitoriava Caetano e em Abril recusava que a Madeira fosse caixote de lixo dos ditadores. O povo superior é esperto.

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