segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PS indiferente a recados de Soares

A direcção do PS acolheu com indiferença as afirmações de Mário Soares, ontem, em artigo de opinião no DN, recomendando ao partido que fundou "mais idealismo socialista" e "menos boys que só pensam em ganhar dinheiro e promover-se".

Em declarações ao DN, José Lello, um dos membros do Secretariado Nacional do PS mais próximos de José Sócrates, desvalorizou as opiniões do fundador do partido. "O PS - disse - só tem uma única preocupação: governar o País e defender o País. É esse o nosso objectivo ideológico e é nisso que devemos concentrar-nos. Tudo o resto é secundário."

Já Vitalino Canas - outro membro do Secretariado Nacional do PS e antigo porta-voz do partido - preferiu ser mais comedido, afirmando que Mário Soares, enquanto principal fundador do PS, "é sempre ouvido no partido com o maior respeito". No entanto, quanto à substância das suas palavras, preferiu o silêncio: "Não tenho comentário. Nem discordância nem adesão imediata."

O DN tentou ainda ouvir António José Seguro, visto no partido como um dos principais candidatos à sucessão de José Sócrates (quando este deixar a liderança do partido). O deputado escusou-se a qualquer comentário.

Mário Soares escreveu no DN que o PS precisa de "dar um novo impulso à sua participação na vida política (independentemente do Governo), com mais idealismo socialista e menos apparatchik, mais debate político e menos marketing, mais culto pelos valores éticos e menos boys que só pensam em ganhar dinheiro e promover- -se, enfim, mais voltado para o futuro e menos para o passado".

"É que - prosseguiu - um PS dinâmico, pluralista e voltado para o futuro - que a sociedade civil respeite e admire - faz falta a Portugal e ao Governo."

Para o antigo presidente da República, "chegou, pois, a hora de o socialismo democrático se repensar, reflectindo colectivamente sobre o que representa ser hoje socialista, não só em palavras mas, sobretudo, no domínio das realizações e dos comportamentos".

É preciso "despir-se, definitivamente, da ganga do conservadorismo neoliberal, descobrir novos horizontes sociais que dêem esperança às pessoas, retomando os valores éticos, dignificando o trabalho e valorizando as transformações sociais necessárias e possíveis, num mundo em mudança acelerada". E isto porque, "nas sociedades europeias, é indispensável e urgente lutar para a erradicação da pobreza, nomeadamente dos emigrantes, que são quem mais a sente, mas também para reduzir fortemente as inaceitáveis desigualdades sociais que existem, principalmente nos Estados periféricos, como Portugal, bem como a precariedade do trabalho".

No seu entender, "é certo que os partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas têm vindo a ficar anquilosados, como as próprias organizações internacionais a que pertencem: a Internacional Socialista - quem a viu e quem a vê! - e o Partido Socialista Europeu".

Ou seja, "é preciso reagir e insuflar-lhes uma rajada de ar fresco que os obrigue a empunhar a bandeira dos valores éticos e ideológicos, que são os seus, com aquela ponta de utopia necessária para que as sociedades avancem". "A família socialista - concluiu - é, hoje, indispensável para o avanço institucional da UE, de modo que esta possa ocupar o papel que merece na cena internacional."

Foi neste contexto que inseriu as suas recomendações ao PS de José Sócrates.

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