sábado, 13 de março de 2010

TEMPORAL FEZ RUIR ESTRATÉGIA DE SERRÃO



Entrevista a Jacinto Serrão
Temporal baralhou a estratégia
Data: 13-03-2010
Eleito há dois meses para a liderança do PS-M, Jacinto Serrão foi obrigado a alterar a estratégia política, depois da tragédia de 20 de Fevereiro. O seu adversário, Alberto João Jardim, passou a ser 'amigo' de José Sócrates a quem começou por enfrentar, devido à extinta lei das finanças regionais. Numa entrevista ao DIÁRIO e à TSF/Madeira, mostrou-se cauteloso nas questões internas do partido e acredita que é possível bater Jardim, em 2011.Assumiu a liderança do PS-M num cenário que mudou, radicalmente, depois do dia 20 de Fevereiro. O que foi obrigado a mudar? O PS estava a delinear uma estratégia, tendo em conta todo o cenário anterior a 20 de Fevereiro, apesar de já ter feito apelos, junto das instituições partidárias e de governo próprio da Região, para que tentássemos unir esforços para encontrar soluções para os graves problemas que a Madeira enfrenta. É preciso não esquecer que a crise que estamos a viver já existia antes disto. Não precisei de viver esta terrível crise para fazer um apelo à concórdia e unidade. Fiz isso no dossier da lei de finanças e noutros.A lei das finanças regionais deixou de existir e agora tem Alberto João Jardim e José Sócrates amigos. Tudo isso não alterou completamente a sua estratégia? Vai mudar muita coisa, do ponto de vista da acção política do PS-M, mas este entendimento, entre o Governo Regional e o Governo da República, em torno desta tragédia, é muito útil porque foi sempre isso que defendi. Sempre pedi ao Governo Regional que se deixasse de insultos e ataques pessoais aos responsáveis da República, para que se pudesse encetar um diálogo. Infelizmente não foi conseguido, foi preciso dar-se esta tragédia para que presidente do Governo Regional e a Região, no seu todo, ficassem mais humildes e reconhecessem as fragilidades. A Madeira não pode ser independente, não consegue viver sem a solidariedade do Estado e da União Europeia.Não teme o regresso ao tempo de António Guterres, em que vinham cá ministro elogiar o Governo Regional? Eu confio no sentido de Estado do senhor primeiro-ministro que, no exercício das suas funções, vai ter um bom relacionamento institucional com o Governo Regional. Mas, na esfera partidária, não nos esqueçamos que eu tenho um excelente relacionamento com quase todos os responsáveis de Governo que são militantes do PS, nomeadamente o secretário-geral, José Sócrates. Acredito que ele tudo fará para que o PS-M possa apresentar-se como uma alternativa de poder na Região, em 2011. O que sempre disse é que os assuntos que precisam de ser urgentemente resolvidos devem estar acima das questões partidárias, ou eleitoralistas. Os partidos não podem pensar só nos votos.Mas esse tipo de trégua não impede que se peçam contas por esta catástrofe? Não é bem assim. O que o PS tem dito é que neste momento em que as pessoas ainda estão em profundo sofrimento, devem ser congregados todos os esforços por forma a conseguirmos todos os apoios possíveis. Por isso é que propusemos uma comissão eventual, para que todos os partidos pudessem acompanhar a reconstrução.Uma comissão que não será aceite pela maioria. Não sabemos, esperemos que a maioria aceite, porque evitaria o ruído em torno desta questão e proporcionaria uma eficácia muito maior na reconstrução. Os deputados, legítimos representantes do povo madeirense, têm a obrigação de conhecer o que se passa em torno de toda esta reconstrução que deve ser acompanhada de rigor, respeito pela Natureza e pelo ordenamento. Se tivermos esta comissão de acompanhamento, os partidos já não terão necessidade de andar, de uma forma desgarrada a dar as suas opiniões e críticas.Há mais dinheiro para a reconstrução, o que significa mais inaugurações e discursos. Já sabe que perdeu as eleições de 2011? Contava enfrentar Alberto João Jardim nessas eleições? (Riso) De forma alguma! O PS tem de estar preparado para qualquer cenário político e eleitoral, independentemente do candidato que se apresente às eleições pelo PSD.Mas há candidatos e candidatos e este já tem mais de 30 vitórias, todas contra o PS-M. Reconhecemos que Alberto João Jardim é um candidato difícil, mas o que precisamos é de mostrar que o PS tem pessoas competentes, com ideias novas e um projecto para tirar a Madeira destas dificuldades. Precisamos de um novo paradigma de governação que rompa com este que está esgotado e leva a Madeira um beco sem saída.Esse foi o discurso de eleições anteriores e que não resultou. Acredito que os madeirenses, cada vez mais, estão conscientes das grandes dificuldades que vivem e que resultam de um modelo de desenvolvimento, encetado pelo dr. Alberto João Jardim, há mais de 30 anos, que já não tem pés para andar. Se os eleitores tiverem esta consciência, é natural que façam uma mudança para um novo paradigma.Tem tempo, até 2011, para fazer isso? Sim e acredito que os eleitores vão votar, maioritariamente, no PS. É para isso que servem as democracias, ou então estamos a pôr em causa que a Madeira viva numa democracia. Se não damos a hipótese de mudança em cada acto eleitoral é porque o regime democrático não está devidamente amadurecido.Um regime democrático em que, por exemplo, o líder do maior partido da oposição não é convidado para as inaugurações. A Madeira ainda não atingiu um determinado estado democrático de desenvolvimento. Todos os representantes do povo madeirense deveriam estar representados nas inaugurações, infelizmente não é isso que tem acontecido porque, para a idade que tem, a democracia da Madeira ainda está muito pouco desenvolvida. O líder da oposição tem, por lei, um estatuto protocolar igual ao de secretário regional, mas tal nunca foi cumprido pelo Governo Regional.Voltando às eleições, depois de sucessivos resultados pouco acima dos 15%, é realista falar em vitória em 2011? Temos de avaliar as conjunturas de cada acto eleitoral. Toda a gente dizia que isso era impossível em 2004 e nessas eleições o PSD, que estava habituado a ter sempre mais de 60%, ficou com 53%, próximo de perder a maioria absoluta. Acredito na força e na inteligência dos madeirenses.Repetir esses 30% de 2004 já era um bom resultado? Não vejo as coisas assim. As falhas desta governação ficaram a nu nesta tragédia e se os madeirenses tiverem essa informação de que este Governo falhou, acredito que vão fazer uma aposta num salto qualitativo na democracia da Região. Acreditando nisso, não tenho razões para temer as eleições de 2011, mesmo com o candidato Alberto João Jardim.Admite coligações? É muito cedo para falar nisso, o que é importante é avaliar o percurso político, nos próximos meses. Essas são questões que devem se amadurecidas porque podem pôr em causa a estratégia que temos para a Região. No entanto, já procurei entendimentos com as outras forças políticas.O seu antecessor, com uma aproximação que chegou a ser vista como excessiva a outros partidos, como foi o caso do PND, não prejudicou o PS? Não vou fazer comentários em relação ao meu antecessor nem em relação a outros responsáveis anteriores. Isso são coisas do passado, o que interessa é o futuro.O PS perdeu votos para os partidos mais pequenos, como pensa recuperá-los? Se perdemos votos para esses partidos mais pequenos, alguma razão houve. O que temos de tentar é voltar a ter uma estratégia credibilizadora para atingir aqueles que já votaram em nós e agora votaram noutros partidos. Mas isso não chega, para um partido que quer governar a Região, temos de conquistar eleitorado ao PSD. Se o PSD não perder eleitores, é evidente que nunca perderá eleições.Encontrou o PS-M pior do que quando o entregou, em 2007? Não me compete fazer essa avaliação. Os órgãos do partido ainda estão a fazer o seu trabalho. O que interessa é organizar o partido, dar rigor a toda a gestão, para que tudo esteja ao serviço da estratégia.Não comenta o que fez a direcção anterior, mas uma das suas primeiras medidas foi mudar uma decisão que se mantinha há muito tempo: Bernardo Martins era o candidato a vice-presidente da Assembleia. A sua candidatura a esse lugar faz parte da estratégia do partido? Não se pode colocar estas questões no plano pessoal e se alguém fizer essa leitura está errado. Há legitimidade para uma nova direcção ter novas orientações em diversos dossiers.Este não pode ser mais um foco de confusão no PS-M, como tem havido tantos? O PS é um partido adulto e sabe, muito bem, interpretar o que é feito e é explicado nos órgãos próprios. No caso da vice-presidência da Assembleia, queremos retomar essa questão e recolocá-la na agenda política regional, com o próprio líder a candidatar-se. Queremos dar um sinal claro à Madeira e ao parlamento regional: se esta situação não se resolver agora, com uma única eleição, então o caso, para nós, está definitivamente arrumado e o PS não terá vice-presidente. A Assembleia deverá assumir o ónus de funcionar sem uma Mesa completa.O PSD já disse que mantém os dez votos 'sim', tem a garantia de reunir os outros 14 para garantir a eleição? Não tenho, nem tenho de ter. O que é preciso é que a Assembleia dê garantias de maturidade política. Como já disse, para a idade que temos de regime democrático, a democracia ainda está muito pouco desenvolvida. Os deputados devem perceber que esta situação não prestigia a Assembleia.Victor Freitas, que foi seu adversário nas eleições internas, volta à Assembleia? Essa é uma questão que também é pública. Essa decisão compete à comissão de regimento e mandatos. O entendimento que eles têm não é o nosso e põe em causa a qualidade da democracia.Neste dois meses, desde que é presidente, o que é que mudou no PS-M? O que é que funciona no partido? O partido está a preparar eleições paras as secções e concelhias, a JS também está a fazer o seu trabalho, o departamento de mulheres tem um contencioso que tem de ser resolvido e espero que nos próximos quatro a seis meses todos os órgãos do partido estejam devidamente activos. Mas já há muita coisa feita, como é o caso do gabinete de apoio aos autarcas. As nossas sedes também estão a ficar operacionais.Financeiramente como é que encontrou o PS? Assustou-se? Eu não me assusto facilmente. O que os madeirenses querem saber não são essas questiúnculas internas que vão dando uma ideia fraca do partido no exterior. Os dirigentes já perceberam que as questões de ordem interna não devem andar na praça pública. PS perto dos 41%: Serrão não acredita em eleições antecipadasUma sondagem, publicada, ontem, pelo DN e pelo JN, colocavam o PS nacional perto dos 41% nas intenções de voto e mais perto da maioria absoluta do que nas últimas eleições. Um crescimento que, no entanto, não leva Jacinto Serrão admitir que José Sócrates possa provocar eleições antecipadas, dentro de pouco tempo. "O primeiro-ministro está determinado, mesmo contra todas as dificuldades colocadas pelos partidos na Assembleia da República, a levar o seu mandato até ao fim", garante.O líder do PS-M não acredita que Sócrates provoque eleições, mesmo sendo alvo de sucessivos casos mediáticos. "Muitas dessas situações deveriam estar a ser analisadas no foro da Justiça. Para dar qualidade à democracia é preciso respeitar a separação de poderes e há questões que são do for judicial que deveriam estar a ser analisada no campo da justiça e não estarem ser, constantemente, envolvidas no campo político, porque isso só produz ruído".
Jorge Freitas Sousa com Nicolau Fernandez - TSF

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