terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

UMA CAMPANHA ALEGRE...

PARA MEMÓRIA FUTURA
7 de Janeiro de 2010 in Diário de Notícias

Lisboa e hipócritas travam PS-M
Na véspera dos socialistas escolherem novo líder, o actual analisa o mandato

João Carlos Gouveia assume ter sido pessoalmente derrotado, mas garante que o partido ganhou.

Atribui a derrota pessoal e eleitoral aos 'cavalos de Tróia' que também acabaram derrotados. O presidente não se coíbe de chamar hipócritas aos seus e denuncia pedidos de favores ao Governo da República.

Ninguém sai ileso, dentro e fora do partido, mas Gouveia afirma-se confiante de que tem razão e de estar certo.Que imagem acha que vai ficar, nos militantes e nos madeirenses em geral, do seu mandato à frente do PS?

Fica a mudança profunda e histórica que acontecerá dentro do PS-M a partir de sábado à noite.O que é que muda?Acima de tudo a consistência de uma liderança, de quem ganha as eleições, para se afirmar e afirmar o partido a médio e longo prazo. E deixa de haver os cavalos de Tróia de uma década. Está falar de Victor Freitas e de Jaime Leandro?Estou a falar de dois Cavalos de Tróia. O que me interessa é pensar no futuro e não discutir pessoas. Deixo um partido estruturado nos seus militantes, nas suas estruturas de base, nos autarcas e, a médio e longo prazo, chegaremos ao poder. O que é médio e longo prazo? Esta Direcção tem de se preparar de imediato para as presidenciais. O PS-M, falo por mim, inequivocamente está ao lado de Manuel Alegre. O novo presidente terá as eleições presidenciais, depois as regionais e depois, tem de ir novamente a congresso, ganhar o congresso, fazer as autárquicas, as nacionais e de novo as regionais. Para conquistar o poder em 2011?Impossível. Há pessoas que não estão a fazer nada para isso. Estão apenas a discutir os lugares no parlamento. Quem quer brincar aos congressos e fazer carreiras políticas vai disputar os lugares em 2011. Com isso não perco tempo. Esse tempo já perdi eu. Já gastei muita energia nisso. Tenho muito orgulho das marcas que deixei. Não só no PS, mas em termos regionais. Que marcas são essas. Há quem as avalie como mais negativas do que positivas?A marca foi tão profunda que até o discurso que eu trouxe para o PS deu para um partido da extrema direita eleger um deputado ALM. Se calhar à custa do PS.Obviamente que sim e com o apoio de socialistas. Esse partido, aquele a quem os cavalos de Tróia se ancoraram. Mas, em termos autárquicos e para a AR, esse partido não tem possibilidade na Região, porque a extrema direita é preenchida pelo PSD. Quem traz a mais-valia eleitoral para esse partido é o senhor Coelho que é militante comunista (...). Essa divisão se calhar ajuda ainda mais o PSD. Obviamente que sim. Mas, curiosamente, aqueles que deveriam estar nas campanhas eleitorais do PS, que são dirigentes e que hoje se apresentam ao eleitorado interno e vão ter a resposta dos militantes, não estavam a fazer campanha para as europeias, não fizeram campanha para as legislativas nacionais, não fizeram campanha para as autárquicas, fingiram-se de corpo presente. Disse que esses cavalos de Tróia estariam com o PND. Quem vimos com o PND foi o senhor. Não é o PND que está em causa. A única estratégia de sobrevivência política é se agarrarem ao PND. Não podiam apoiar o João Carlos Gouveia (JCG), porque, se não, ele perpetuava-se mais uns tempos dentro do partido, então tiveram a estratégia de fazer com que JCG não tivesse resultados eleitorais externos, para ir para casa. Isso é clarinho como água. Objectivo conseguido!?Perdi. Perdi claramente em toda a linha, assim como o PND ganhou. Mas não perdi a esperança. Perdi pessoalmente, mas o partido, ganhou, porque está preparado para o futuro. Neste mandato apresentou várias ideias. Há pouco falou do combate à corrupção. Concretamente, o que é que ficou?Preto no branco. Aquilo que um dirigente do PS levou ao Procurador da República, não foi perguntar, foi dar indícios. Apresentar factos concretos, onde eu perguntei (está lá a minha assinatura), ainda não obtive resposta, se investigava ou não o dr. Miguel Albuquerque. Eu pedi para ser investigado. Mas não tive resposta. Em termos legais eu tenho esse direito. O PS nacional foi sempre visto como um adversário do PS-M.Não posso dizer isso. Mas a minha acção não se desenvolveu muito mais por causa do PS nacional (...). O que me aborrece e me dá força para falar, é que os socialistas do continente esqueceram-se do que é combater em defesa da liberdade, da justiça social, do Estado de direito. Está a precisar de uma cura da oposição?Muito mais do que isso, de redefinir a sua orientação política e ideológica.Quando se candidatou em 2007 e foi a Congresso, tinha uma série de objectivos que não foram alcançados. Gostaria que nos desse uma explicação para isso. Por exemplo a criação do governo-sombra, o gabinete de estudos?Eu não queria ser deselegante, se não tinha de falar de pessoas. O professor Agostinho Soares já falou nisso. Eu não quero entrar nisso. A Carta de Princípios que seria responsabilidade de Jacinto Serrão?Isso seria se, do ponto de vista do PS, se mantivesse a dimensão institucional, que não mantivemos. Quem quebra as dinâmicas de dimensão institucional não são eu, são as pessoas. Dou-lhe exemplos do que não aconteceu mas que se iniciou: a relação com o Governo da República e com o partido a nível nacional. Os senhores deputados que iam para a AR, a propósito do Orçamento, encenavam, nas primeiras semanas, que não sabiam se iam votar a favor ou contra. Era tudo encenação. Hoje há uma consciência profunda de que um óbice, um obstáculo à afirmação do PS-M é o PS nacional. Não é o engenheiro Sócrates ou esta Direcção, é uma cultura (...). Os dirigentes regionais do PS não querem este conflito, esta disputa, este braço-de-ferro. O senhor era o líder dos dirigentes regionais.O que posso dizer é que a grande maioria dos dirigentes regionais não preferem o trabalho político. Preferem ficar acomodados porque um dia podem ser convidados para secretários de Estado, para deputados, pelas relações que se estabelece com o Governo da República. A lógica do lugarzinho.No meu telemóvel tenho o número de vários ministros. Só utilizo isto [telemóvel] para questões políticas. Mas imagine que eu tinha uma empresa de serviços internacional. Não tinha empreendimentos no Dubai, mas em Marrocos, ou no Canadá, ou nos Açores, teria acesso directo ao telefone do ministro. O que é que fez com que Jardim Fernandes tivesse passado para 11º lugar em vez do 9º, nas europeias?A tese para mim é esta: ou o PS assume que os representantes das regiões autónomas estão no Parlamento Europeu, ou não. Na Mesa do Secretariado as únicas duas pessoas que apoiaram esta tese foi o José Sócrates e Carlos césar. O resto não quer saber. Ser socialista no continente é estar próximo do poder, ter as benesses do poder. Ser socialista na Madeira é combater o regime. Toda a confusão à volta da escolha do cabeça-de-lista à AR, primeiro o senhor, depois outro, Miguel França... não prejudicou o partido?Peço desculpa. Os cavalos de Tróia gostavam de ver o JCG no parlamento nacional. Acha que eu teria algum prazer em estar na AR?Então por que anunciou que seria candidato?Alguma vez anunciei que seria candidato?Disse que a solução mais lógica era essa. Alguém fez-me a pergunta e eu disse que era normal, mas não foi eu que disse. Há um conjunto de socialistas madeirenses que me querem ver na AR, provavelmente nas ilhas do Pacífico. Não foi candidato para os contrariar?Nada disso. São as mesmas cabeças que gostam de ver o JCG confinado por trás da Encumeada. O espaço do João Carlos é ali. Eu levo os meus passos para onde eu quero. A escolha de Bernardo Trindade foi sua?Obviamente minha. Obviamente minha. Não deveria ter sido dos órgãos do partido?Está brincar comigo. Então o presidente do partido é para quê?Não deveria ser ratificada?E é sempre. O presidente do partido é para pedir ao secretário-geral que assine um cheque?Isso quiseram fazer. A determinada altura o presidente do partido era só isso. Eu sempre disse que não iam fazer comigo o que fizeram com outro líder do PS. Voltemos aos que chama de cavalos de Tróia e ao afastamento... Afastamento?Não, não, demissão. É mais cruel a demissão. Um presidente do PS em qualquer parte do mundo tem de ter capacidade de demitir. Fi-lo e tinha razões para o fazer. Essas razões foram devidamente explicadas?Não tenho de explicar. Um presidente de qualquer organização tem de ter capacidade de demitir. Na altura falou-se em questões financeiras. Por essa razão, Jaime Leandro colocou-lhe um processo em tribunal. Como vê essa acção?Sabe o que é que vai acontecer? De certeza que o MP apresentará uma acusação contra o dr. Jaime Leandro. Veja a ironia do destino, não por minha iniciativa. Tem informações nesse sentido?Por aqui me fico. Por aqui me fico. Se diz que o MP apresentará um processo, está dizer que houve irregularidades praticadas por esse militante.Estou a dizer que o mais provável é que isso aconteça. Afastou Victor Freitas da liderança parlamentar e não conseguiu ninguém para o substituir. Teve de lá ir. Isso é a lei da vida. Um presidente sozinho no meio dos deputados?É a luta política. Não estamos a falar de feijões. Não vos passa pela cabeça o poder que tem o presidente do PS. É o que eu digo: este telemóvel só tratou de questões políticas, não tratou de outras questões, mas podia ter tratado. A mim foi-me solicitado e eu reneguei. O que é que lhe foi solicitado?Benesses e favores do Governo da República, que eu recusei.Por parte de militantes do PS?Por aqui me fico.Uma cunha?!Sim. Estamos a falar não de um varandim de uma casa. Estamos a falar de negócios chorudos. Estamos a falar de poder. A certa altura pensou-se que o JCG, pressionado, ia ficar com as pernas tão a tremer que ia abandonar isto tudo e ia para casa e os tais cavalos de Tróia já estavam a dirigir o partido. E chegavam ao congresso a dirigir o partido. Falhou tudo. Passou-se a ideia de que o JCG ficou tão deslumbrado com o poder, que se agarrou a ele. O que é que o levou a estudar a hipótese de deixar cair a candidatura de Bernardo Martins à vice-presidência ALM?Eu não sou hipócrita. 90% dos dirigentes do PS querem estar na vice-presidência. Aos que não querem, as minhas desculpas públicas. Para mim é uma ofensa estar num parlamento onde não há pluralidade. Quem está certo sou eu. O resto é fingimento. O resto é hipocrisia. Não era uma cedência ao PSD mudar o candidato?Eu tinha de ter a consciência tranquila de que não conseguia resolver esse problema. O problema vai se mater. Já percebemos por que não apoia Victor Freitas. Por que só anunciou esta semana que estava ao lado de Jacinto Serrão?Não tenho que anunciar. Disse aos principais dirigentes. Vou ser muito franco, tive várias pessoas que queriam que eu fosse novamente candidato. Chegou a ponderar?No início de 2009 falava nisso. Claro, mas a partir do momento em que houve uma estratégia delineada para eu ter maus resultados, os cavalos de Tróia conseguiram... para inibirem a minha candidatura... Mas não há responsabilidades suas nas derrotas?Responsabilidades como? Na questão dos candidatos autárquicos, muitos não foram os que pretendia. Qual? Quais?Santa Cruz, Funchal... Pedi encarecidamente ao Filipe Sousa, era genuíno o que pretendia, mas ele queria uma candidatura independente, sempre a quis. Carlos Pereira, no Funchal.Tem de perguntar ao dr. Carlos Pereira por que é que ele não quis. Não há erro seu, em dizer que eles eram os candidatos...Erro seu? Quer que eu lhe mostre duas folhas para dizer qual foi o erro?Sim.Não mostro. Eu aceito isto como questões de poder. Há pessoas que entendem que JCG tem de estar em casa. Rejeita responsabilidades?Todos nós temos responsabilidade. Quais são as suas?As minhas responsabilidades foram ter aceite ser presidente do partido. O que veio a acontecer eu sabia que ia acontecer. Dito assim é admitir que não era a pessoa certa para presidir ao partido.Desculpe, era a única pessoa disponível. Eu sou das poucas pessoas disponíveis no PS para perderem pessoalmente para o partido ganhar. Se soubesse o que sabe hoje faria tudo na mesma?Faria tudo na mesma, só não poria as pessoas que demiti.E partir de agora?Serei um cidadão. Há tanta coisa para fazer no partido, para fazer na Madeira... Não me vou dedicar à malandrice. Não sou malandro meu caro. A sua intervenção passará por onde, ALM, São Vicente?Nem que seja no Paul da Serra ou nas Desertas. Eu estou comprometido do ponto de vista político e pessoal com São Vicente. Eu estou disponível para tudo. Gostaria de ser candidato em 2011 à ALM?Tudo depende de várias coisas.A sua vontade?Eu serei o que for mais útil ao partido e mesmo aos cidadãos. Agora não tenho dúvidas de que terá de haver a relação para a ALM ligada à competição entre as estruturas dos concelhos. Ou de uma vez por todas o PS encaixa na ALM aqueles que corporizam os concelhos, ou então vamos ter vedetas caídas não sei de onde. Já viu que em sete deputados o único candidato à Câmara fui eu? O que é que é isso? Não é brincar com os cidadãos e à política. Disponível para colaborarNa entrevista, que poderá ver e ouvir na integra no site do DIÁRIO e na TSF, João Carlos Gouveia fala também do que é ser da oposição na Madeira e da acção do PSD.Gouveia explica como o PS nacional e a Assembleia da República ficaram à espera da posição dos deputados da Madeira, na questão do Orçamento do Estado.O presidente cessante fala da sua acção em São Vicente e de como, nos últimos tempos ficou "especializado em ribeiras".É também explicado por que razão Gouveia considera que o PND ganhou no espaço que, por natureza é do PS-M.O ainda líder do partido fala daquele que considera ser o seu sucessor, Jacinto Serrão, a quem tece rasgados elogios. Gouveia está disponível para colaborar com o futuro líder. Pensa o actual presidente que Victor Freitas será copiosamente derrotado.
Élvio Passos

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